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SEM APOIO

Prefeitura de Belém abriga índios venezuelanos em locais insalubres

Quarta-Feira, 26/06/2019, 07:28:01 - Atualizado em 26/06/2019, 07:28:01 Ver comentário(s)

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Prefeitura de Belém abriga índios venezuelanos em locais insalubres (Foto: Ney Marcondes)
Refugiados da etnia Warao, que estavam acampados em praça, foram enviados para abrigo que não possui água e nem local para cozinhar. (Foto: Ney Marcondes)

Faz pouco mais de 6 meses que o artesão Gustavo Cardona, de 22 anos, deixou a comunidade de Paso Nuevo, em Monagas, no nordeste da Venezuela, e veio para o Brasil com a esperança de viver dias melhores. Sentado na rede, sem ter uma banquinha ou mesa na qual possa produzir suas artes, ele confecciona algumas peças de colares de miçanga para vender e com o dinheiro ter o que comer e ajudar parte da família que permaneceu na Venezuela.

A jornada está sendo longa e difícil, principalmente diante da falta de apoio da prefeitura para ajudá-los. Gustavo faz parte do grupo de 32 indígenas Warao que estavam acampados no canteiro central da avenida Rômulo Maiorana (antiga 25 de setembro), no bairro do Marco, em Belém, onde viviam em condições degradantes e sub-humanas. Atualmente, o grupo mora num abrigo cedido pela prefeitura de Belém, na avenida João Paulo II, na esquina com a travessa Lomas Valentinas. Porém, o espaço está em condições insalubres.

Para se ter ideia, há goteiras por toda parte. Nos banheiros, não há água e nem caixa para descarga. Na cozinha não tem botijões de gás e os abrigados cozinham na lenha e no carvão. Segundo o grupo, a prefeitura apenas cedeu o espaço, mas não forneceu sequer produtos de limpeza e de higiene pessoal.

Valentim Pere, um dos indígenas mais velho do abrigo, com 71 anos, é o líder do grupo. Ele entende o português, mas fala espanhol. Contou que o grupo está há mais de 4 anos tentando escapar da situação de miséria e caos que a Venezuela está vivendo. “No tempo de Hugo Chávez, os índios tinham onde trabalhar e condições para isso. Agora, com o [Nicolás] Maduro acabou o trabalho, a comida, os remédios e as roupas. São tempos de muitas dificuldades para os nossos irmãos venezuelanos”, disse.

Ele contou ainda que era uma espécie de cacique na comunidade onde morava, mas sabe que, aqui no Brasil, isso não tem a devida importância. “O que importa agora é que a gente consiga trabalhar, que a gente possa e tenha onde vender os nossos artesanatos”, frisou o indígena. “Estamos sobrevivendo da solidariedade das pessoas que nos ajudam, mas precisamos ter o nosso próprio dinheiro”, desabafou. “Tem quem venha aqui e diga que não gostamos de trabalhar, não é verdade!”, declarou o indígena.

Antes de chegar à capital paraense, em busca de oportunidades, Valentim relembrou que o grupo chegou ao Brasil pelo Estado de Roraima, cruzando a fronteira por Pacaraima, depois seguiu em direção a Manaus (AM), indo a Santarém e de lá vindo para Belém, onde acamparam na Rômulo Maiorana.

 Abrigo cedido pela prefeitura não possui água ou condições de higiene. (Foto: Ney Marcondes)

Em outro abrigo, as condições também são ruins. (Foto: Ney Marcondes)

PERIMETRAL

No abrigo municipal da avenida Perimetral, no bairro da Terra Firme, vivem 16 índios. As condições do espaço estão bem piores. Não há sequer uma geladeira para eles guardarem os alimentos que precisam ser conservados. Quando a reportagem chegou ao espaço, ontem, encontrou uma mulher warao tentando limpar a casa com uma vassoura velha, que mal consegue arrastar a sujeira. Os banheiros não têm água, eles precisam carregar baldes e recipientes para poder jogar no vaso sanitário e tomar banho. “Não tem sabão para limpar a casa. Comida é o que nos dão”, disse o indígena.

A Prefeitura de Belém, por meio da Fundação Papa João XXIII (Funpapa), disse em nota, que entrega dois botijões por semana para cada espaço, assim como alimentos e material de higiene pessoal. “Todos os indígenas da etnia Warao que estão nos abrigos do município receberam kits com rede nova. A PMB esclarece, ainda, que toda semana o Departamento de Obras e Manutenção (DOM) da Funpapa realiza vistoria nos locais”, informou.

ACOLHIMENTO

Segundo a Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda (Seaster), atualmente, 176 indígenas da etnia warao são atendidos em Belém, pela Seaster, através do acolhimento na Casa de Passagem Estadual Domingos Zahluth, hoje dividida em duas unidades (Chaco e Cametá). No que diz respeito a novas oportunidades de trabalho aos índios warao, a Secretaria tem formulado um mapeamento desse público, observando suas especificidades, grau de escolaridade e habilidades já apresentadas. A maioria dos migrantes venezuelanos já trabalha como agentes de trabalhos manuais, o que garante o cadastro na rede de artesãos gerenciada.

“A partir do próximo mês os venezuelanos acolhidos no Domingos Zahluth estarão participando desse cadastro e recebendo carteirinhas de artesãos, o que garante a participação em salões e feiras estaduais. Além disso, já existe um grupo atendido em nossos abrigos que tem participado de feiras itinerantes, eventos de comercialização de produtos artesanais realizados em órgãos públicos”, informou.

(Denilson D’Almeida/Diário do Pará)





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